segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

REPORTAGEM: PROJETO ÉTICA E MEIO AMBIENTE 2014

Do individual para o coletivo: como a ética mudou uma escola

Ao não manter o ambiente escolar limpo, alunos desrespeitavam a si mesmos.
O hábito de comer e largar os pratos no chão parecia tão natural para grande parte dos estudantes da Escola Estadual Professor Júlio Bierrenbach Lima, que fazer o correto seria como querer parecer o certinho para os outros, o que não ficaria bem entre os colegas. E, então, quem se arriscaria a mudar? Lá um belo dia, a professora de Língua Portuguesa apareceu com uma proposta diferente, que mexeu com os valores de cada um e a transformação teve início: do individual para o coletivo.
Inspirada em um dos temas de redação do Enem - O indivíduo frente à ética nacional - a professora Selma Aparecida Groff teve a iniciativa de propor não apenas trabalhos que estimulassem a escrita, como também proporcionassem aos alunos o conhecimento necessário para desenvolver um bom texto. E ela sabia que isso só seria possível se eles estivessem envolvidos com algo que realmente tivessem interesse. Ética era um tema que chamava a atenção de todos, por envolver atitudes perante situações da vida, algo tão necessário ser discutido sempre e principalmente nos dias de hoje. E, então, Selma uniu Ética ao Meio Ambiente, dois temas transversais que constam nos Parâmetros Curriculares Nacionais, e complementares entre si no projeto intitulado Ética e meio ambiente na adolescência, que foi desenvolvido com os alunos dos quatro primeiros anos do ensino médio.
Temas transversais são aqueles que podem ser abordados em todas as disciplinas porque atravessam diferentes campos do conhecimento. Os alunos discutiram o assunto, pesquisaram, fizeram entrevistas sobre a problemática com funcionários da própria escola, saíram para ver exposições, foram conhecer mais sobre o meio ambiente e produziram muito: textos (que foram apresentados em forma de slides), peças de teatro, curtas-metragens, músicas, poesias... No meio disso tudo teve até prêmio, em primeiro lugar, em um concurso da UNESP.

Como tudo começou:
Selma Groff conta que tudo começou com um debate para que os alunos pudessem responder o que é ética e o que é meio ambiente. Os temas são interligados, afinal quando se fala em meio ambiente, não se está falando somente de aspectos físicos e biológicos. As relações que são estabelecidas pelo ser humano - social, econômico e cultural - também fazem parte desse meio e, portanto, são objetos da área ambiental.
A professora conta que o que mais incomodava na escola tinha tudo a ver com ética e meio ambiente: o posicionamento dos alunos que estavam desrespeitando a si mesmos, os outros estudantes e os funcionários da escola, sem se darem conta. E ainda sujando o lugar onde estudam. Tudo por causa de uma prática que se tornou um hábito incorrigível: comer e largar o prato no chão.
Segundo os alunos entrevistados, não adiantava os funcionários brigarem, falarem, o hábito permanecia. Foi então que um dia, quando foram conversar com funcionários da escola sobre o tema ética, que acabaram ouvindo deles a reclamação sobre a sujeira e entenderam as razões. Diante dos depoimentos, eles perceberam que aquela atitude tinha de ser mudada. "Ética é respeito. Se você se respeitar, você vai conseguir respeitar o outro ser humano e o ambiente que está ao seu redor. O ambiente não é só o espaço, é a boa convivência, é pensar sobre si, e os alunos refletiram e tiveram essa consciência", orgulha-se Selma.
O projeto se espalhou pela escola porque Selma estimulou seus alunos a apresentarem tudo o que tinham aprendido para os colegas das outras séries: de 5ª a 8ª e 2º e 3º anos. Além disso, os primeiros anos - envolvidos com o trabalho - interagiram entre si e produziram juntos.
E se engana quem pensa que o assunto ficou concentrado na sujeira da escola, esse foi um dos aspectos abordados pelos estudantes. Pode-se dizer que é o tema que contou com maior mobilização de alunos, coletivamente, mas as transformações pessoais foram muitas e em vários aspectos.
Os estudantes foram conhecer o SOS Mata Atlântica e o Projeto Catavento (onde receberam orientações sobre cuidados com o corpo e a saúde, foi falado sobre drogas, prevenção à gravidez, entre outros). "Foram abordadas questões importantes para que eles se conheçam como pessoa e saibam os seus limites, até onde podem ir. Os adolescentes têm mania de exagerar em tudo, cometer excessos com alimentação, bebida, sexo", comenta a professora. "Eles perceberam que tudo o que gera um mal-estar para o corpo, gera para o ambiente ao seu redor", complementa.
Para esse trabalho, Selma contou com a colaboração de professores de outras disciplinas: Breda, de Educação Física; Soraia Simões e Valéria Pisani, de Biologia; Sheila Guiden, de Arte; e Gislaine Nunes Cabral, de Ciências. O projeto durou o ano todo e alunos de outras séries também colaboraram, como por exemplo, a turma do 7º ano, que produziu um jornal cujas notícias foram divulgar as produções do 1º ano.

Aluno vence prêmio com projeto sobre ética e meio ambiente

O projeto Ética e meio ambiente na adolescência foi inscrito na 2ª Mostra Científica para Jovens Talentos de Sorocaba, realizada pela UNESP local, e contemplou Gabriel Giovani Ferreira Santos Leite com o primeiro lugar do ensino médio/técnico. Além de ter conquistado um troféu para sua escola, Gabriel recebeu um certificado de menção honrosa e ganhou bolsa de iniciação científica CNPq pelo período de 12 meses. Com esse incentivo, ele pretende dar continuidade ao projeto, realizando palestras em diversas instituições de ensino. "O Gabriel é um jovem talento. Se ele não conseguisse apresentar de forma clara, não teria ganhado, mas ele soube expor a profundidade do projeto", elogia a professora Selma Groff. Com a temática Meio Ambiente e Sustentabilidade, o evento promovido pela UNESP reuniu 26 projetos orais, mais 15 pôsteres, maquetes e experimentos de alunos do ensino fundamental e médio de Sorocaba, tanto do ensino público como do privado.
A II Mostra Científica para Jovens Talentos de Sorocaba, realizada pela UNESP local e com apoio do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq), premiou diversos talentos jovens da cidade. A mostra, que abordou a temática Meio Ambiente e Sustentabilidade, teve como objetivo despertar em estudantes do ensino fundamental e médio/técnico o talento e vocação para a ciência. O evento contou com a exposição de trabalhos na forma de pôster e oral, bem como a apresentação de experimentos. Esses trabalhos foram avaliados por um comitê científico qualificado, composto por alunos do Programa de Pós Graduação em Ciências Ambientais (PPGCA) da UNESP de Sorocaba e com participação da professora Regina Marcia Longo, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (Puccamp). A abertura do evento contou com a palestra. A transformação do município de Sorocaba e a interferência nas relações socioambientais ministrada pelo estudante Antonio Gabriel Cerqueira Gonçalves, vencedor da I Mostra Científica. os premiados do ensino fundamental foram: 1º lugar - Ana Giulia Gervasio Daniel/Prof.ª. Valéria Vida, com o projeto Plantio em ambiente fechado e pequeno, da Escola Municipal Matheus Maylasky; 2º lugar - Cristian Dreike Lima Soares/Prof.ª. Idelzuite Leme, com o projeto Maquete de energia eólica reciclável e sustentável, da Escola Municipal Matheus Maylasky, 3º lugar - José Francisco Soranz Filho/Prof. Carlos Guariglia, com Água de reuso bombeada com energia das ruas, do Colégio Objetivo Sorocaba. os premiados do ensino médio/técnico foram: 1º lugar - Gabriel Giovani Ferreira Santos Leite/Prof.ª. Selma Groff, com o projeto Ética e meio ambiente na adolescência, da EE Júlio Bierrenbach Lima; 2º lugar - Matheus Henrique Gonçalves/Prof.ª. Mara Kitamura Transporte, do Colégio Dom Aguirre; e 3º lugar - Lucas Henrique Rosa Rodrigues/Prof. Victor Pinheiro, com Preservando a cidade em um clique: o uso da tecnologia móvel, do Colégio Objetivo Unidade Zona Norte. Os três primeiros colocados no ensino médio/técnico de escolas públicas receberam um certificado de menção honrosa, além de bolsa de iniciação científica CNPq (12 meses). Os premiados nesta categoria foram: 1º lugar - Gabriel Giovani Ferreira Santos Leite, com Ética e meio ambiente na adolescência, da EE Júlio Bierrenbach Lima; 2º lugar - Isabella Cristine Santos, com Economia sustentável, da E.E. Antonio Vieira Campos; 3º lugar, Michael Nunes Vieira, com Reparando os males uso sustentável da água, da E.E. Ezequiel Machado / Emerson. Os professores orientadores também foram contemplados com um certificado de menção honrosa. as escolas nas quais esses alunos estavam vinculados também foram contempladas com um troféu. Além das atividades de exposição de trabalhos, a mostra contou com uma oficina de tinta de solos, ministrada por Fátima Aparecida Costa, participante do Projeto Coloide (http://projetocoloideunesp.blogspot.com.br/). A comissão organizadora foi coordenada pelo professor Leonardo F. Fraceto, coordenador do Programa de Pós-graduação em Ciências Ambientais da UNESP Sorocaba.


Estudantes não praticavam na escola aquilo que faziam em casa

Ingrid Correa Gomes, 15 anos, 1º ano D; Isabelly Carvalho Medeiros, 14 anos, 1º D; Gabriel Giovani Ferreira Santos Leite, 15 anos, 1º D; e Gabriela da Silva Oliveira, 15 anos, 1º C, viveram a experiência e fazem questão de contar como foi. Conforme eles, quando estavam planejando o trabalho, surgiu à ideia de fazer entrevistas com os funcionários (e gravar) porque eles é que mais prestavam atenção na ética dos alunos. "Durante a entrevista que fizemos, pelo que eles nos disseram, percebemos que eles são contratados para manter a limpeza, mas não têm obrigação de recolher bolinhas de papel do chão. A função deles é trocar o saco de lixo da lixeira", comenta Ingrid.
Gabriela conta que eles começaram a notar que o que os estudantes faziam em casa, não praticavam na escola. "Aí nós percebemos que, indiretamente, estávamos fazendo mal aos funcionários", relata.
Na escola, são dois funcionários para fazer a limpeza e eles têm 30 minutos para deixar todas as salas em ordem, entre a saída da turma da manhã e a entrada dos alunos da tarde. "Então, agora a gente pede cinco minutos para o professor, antes de terminar a aula, para arrumarmos as fileiras. Também pegamos os papéis do chão e os funcionários da limpeza agradeceram, porque facilitou para eles", conta Isabelly.

O trabalho incluiu entrevista com os funcionários antes e depois da mudança, primeiro para saber o que achavam dos estudantes e depois para terem o retorno, verificarem o que estavam achando. "Estamos levando o exemplo e assim vamos influenciando outras pessoas também. Se eu pegar uma bolinha e jogar no lixo é um trabalho a menos para o funcionário e pode ser uma conscientização para um colega. Temos de mostrar atitude para dar o exemplo, e não cobrar só com palavras", afirma Gabriel.
Todos os participantes do projeto perceberam que os outros alunos da escola começaram a reparar em suas atitudes. Eles contam que começaram a receber elogios e ter o exemplo seguido. "Antes, o pessoal achava feio ser certinho, os alunos tinham vergonha de pegar papel do chão", comenta Ingrid.
Ainda conforme Ingrid, o passo inicial foi manter o pátio limpo. "Melhorou. As pessoas começaram a não jogar mais lixo no chão. A gente conversou com eles de uma forma legal e até o 3º ano nos escutou e respeitou bastante. Antes, os pratos ficavam no chão e, por mais que tivesse alguém que falasse para não fazer isso, era um hábito já e nós vimos que isso precisava ser mudado."
Ingrid e os outros colegas afirmam que não fizeram esse trabalho só por nota. "Mas porque iria proporcionar resultados bons para a gente e para a escola", reforça a estudante. "Muitas pessoas falaram que não podemos esquecer esse projeto. Minha ideia é levar para a vida inteira", diz Gabriel, que pretende ser palestrante.
Já Gabriela conta que aprendeu muitas coisas com o projeto para a sua vida. Durante a pesquisa que fizeram com plantas medicinais, ela descobriu as qualidades do orégano. "Eu não comia e depois que soube que o orégano substitui o sal e faz bem para a saúde, passei a consumir. Outra coisa é que comecei a arrumar o meu quarto. Se você não consegue manter o seu espaço limpo, como é que vai ser capaz de outras coisas? Então, comecei por mudar meus pequenos hábitos para depois partir para as grandes atitudes. O legal desse projeto é que não ficou só no escrito, a gente mudou", diz.
Isabelly complementa: "E não é algo que vai ficar só pra gente. Em casa, com a falta de água, tomei iniciativa de usar a água da máquina de lavar roupa para lavar o quintal. Também comecei a guardar a água do banho em uma bacia, e foi um exemplo para a família. As pessoas veem você tendo atitudes que elas não têm então você é o espelho para a sociedade", afirma. (Daniela Jacinto)
Notícia publicada na edição de 25/12/14 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 020 do caderno A - o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.
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segunda-feira, 27 de outubro de 2014

ÉTICA E MEIO AMBIENTE NA ADOLESCÊNCIA

Selma Aparecida Groff

RESUMO: Este artigo reflete e discute o significado da ética para o adolescente, a relação entre a ética e o meio ambiente, a descoberta do corpo como meio ambiente, a importância de respeitar a si e aos outros. Refletiu-se também sobre a capacidade de transformar-se para então transformar o outro, consciente que se transformar o outro poderá transformar o mundo que o cerca, que cada um deve fazer a sua parte e com essa visão fortalecer valores e atitudes.

Palavras-chave: Ética. Meio ambiente. Adolescência.

ABSTRACT: This article discusses the significance of ethics for the teen, the relationship between ethics and the environment, the Discovery of the body such as the environment, the importance of respecting themselves and others. Also reflected on the ability to turn to then transform the other, become aware that the other can transform the world around you , that every one must do his part and with this view to strengthen values and attitudes .


1 INTRODUÇÃO

O desejo de cuidar de si, do outro e do nós desperta em sujeitos saudáveis a noção de solidariedade e de cidadania. Nisso consiste a ética das relações entre as pessoas. Valorizar a própria vida, o cuidado pessoal, é poder ter a noção do valor da vida do próximo. É esse cuidar que o psicólogo e psicoterapeuta Ivan Roberto Capelatto considera essencial para que possamos ajudar a construir Seres Humanos. Professores e pais são imprescindíveis nesse processo.
Sendo a educação um processo de construção de identidades, que Educar sob inspiração da ética não é transmitir valores morais, mas criar as condições para que as identidades se constituam pelo desenvolvimento da sensibilidade e pelo reconhecimento do direito à igualdade, os jovens necessitam de orientação de condutas por valores que respondam às exigências do seu tempo. Uma das formas pelas quais a identidade se constitui é a convivência e, nesta, pela mediação de todas as linguagens que os seres humanos usam para compartilhar significados.
O Novo Ensino Médio Prioriza a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico. O que se deseja é que os estudantes desenvolvam competências básicas que lhes permitam desenvolver a capacidade de continuar aprendendo dentro de uma perspectiva interdisciplinar.


2 DESENVOLVENDO ÉTICA E MEIO AMBIENTE.

Trazer a ética para o espaço escolar significa enfrentar o desafio de instalar no processo de ensino e aprendizagem que se realiza em cada uma das áreas do conhecimento, uma constante atitude crítica, de reconhecimento dos limites e possibilidades dos sujeitos e das circunstâncias, de problematização das ações e relações e de valores e regras que os norteiam. Nesse sentido, iniciamos esse processo com várias problematizações: Afinal o que é ética para o adolescente? O que é meio ambiente? E como eles entendem a relação entre eles? Partindo desses questionamentos e através de debates e pesquisas analisou-se a ética de várias formas.
A Ética tem por objetivo facilitar a realização das pessoas. Que o ser humano chegue a realizar-se a si mesmo como tal, isto é, como pessoa. (...) A Ética se ocupa e pretende a perfeição do ser humano (Clotet, 1986). Uma das formas pelas quais a identidade se constitui é a convivência. E foi através do sentido da convivência que se desenvolveu todo o conhecimento de ética e do meio ambiente. Partindo do principio que convivência é o modo de vida em que se pode partilhar; vida em comum; convívio diário, ação de coexistir (num mesmo local) de maneira harmoniosa, levantou-se a questão: Como podemos conviver com o outro sem o conhecimento da ética? Podemos definir ética como: sensibilizar-se pela necessidade de construção de uma sociedade justa, adotar atitudes de solidariedade, cooperação e repúdio às injustiças sociais e o tema meio-ambiente proporcionará a percepção da necessidade de mudanças e um posicionamento crítico diante de si e do mundo que o cerca.

Os alunos pesquisaram e escolheram a ética como valores que definem o que eu quero o que eu posso e o que eu devo fazer, pois nem tudo que eu quero eu posso, nem tudo que eu posso devo, nem tudo que eu devo eu posso, como também ser ético nada mais é do que agir direito, proceder bem, sem prejudicar os outros. É ser altruísta, é estar tranquilo com a consciência pessoal. Ética é tudo que envolve integridade, respeito, é ser honesto em qualquer situação, é ter coragem para assumir seus erros e decisões, ser tolerante e flexível, ser responsável pelos seus atos, ser Leal, sentir-se um cidadão, viver com Transparência.
De todos os valores já citados, o Respeito foi o mais debatido. Será que sabemos o que é respeito? O que é respeitar alguém ou algo? A palavra Respeito vem do latim respectus que é um sentimento positivo e significa ação ou efeito de respeitar, apreço, consideração, deferência. Por ser considerado um sentimento O respeito é um dos valores mais importantes do ser humano e tem grande importância na interação social. O respeito impede que uma pessoa tenha atitudes reprováveis em relação à outra. Uma das importantes questões sobre o respeito é que para ser respeitado é preciso saber respeitar, o que em muitos casos não acontece. Como podemos respeitar o outro se não nos respeitarmos? O que é respeitar a si mesmo? Respeitar a si mesmo está relacionado ao cuidado com o meio ambiente “corpo e mente”, ou seja, se há cuidado com o corpo e a mente, esse cuidado reflete no cotidiano da sua vida pessoal e social.
Respeitar não significa concordar em todas as áreas com outra pessoa, mas significa não discriminar ou ofender essa pessoa por causa da sua forma de viver ou suas escolhas (desde que essas escolhas não causem dano e desrespeitem os outros). O respeito também pode ser um sentimento que leva à obediência e cumprimento de algumas normas (por exe.: respeito pela lei). Falar sobre um tema com respeito (como diferentes religiões, crenças e condutas) é falar de forma ponderada e sensível. Na relação com o outro, os alunos concluíram que: “viver o respeito é o ato de não fazer ao outro o que jamais gostariam que fizessem com a eles. É dar espaço para que os outros expressem suas opiniões, sem discriminações ou punições, é não maltratar pessoas, animais, natureza... Simplesmente porque nos consideramos certos ou melhores.”.
Trabalhou-se o que é meio ambiente, partindo do ambiente micro para o meio ambiente macro. O corpo como meio ambiente é ignorado pelos adolescentes. Quando questionados sobre o que é meio ambiente, citaram os biomas, o meio ambiente macro. Não relacionam o meio ambiente com a vida pessoal, cotidiano e convivência. Na vida pessoal, há um contexto importante o suficiente para merecer consideração específica, que é o do meio ambiente, corpo e saúde. Com a busca do autoconhecimento e cuidados com o corpo físico e mental o jovem terá condições de identificar fatores de riscos, tais como: os perigos das drogas, principalmente a bebida alcóolica; da alimentação inadequada, gravidez precoce, bullying, vícios em jogos (vídeo game, computador e celular), rede social, os perigos na perda da audição em ouvir som alto ou não via celular, entre outros.
Considerando esse contexto de sensibilização, o aluno terá a capacidade de transformar o seu meio ambiente micro, transformando-se como pessoa e macro, o qual está inserido seja do lar ou escolar, como por exemplo: reorganizar um espaço ocioso em utilitário ou ainda cuidando e transformando-o esteticamente. No decorrer desse processo, o aluno terá o oportunidade de conhecer dois ambientes, os quais fortalecerão a teoria trabalhada. Conhecerá o espaço SOS Mata Atlântica e o Projeto Catavento, espaço onde conhecerá tudo sobre prevenção de drogas e gravidez na adolescência. De modo que, perceberá a relação que se dá no cuidado do corpo e da mente, compreendendo que a saúde física e mental é produzida no meio físico e social. Necessitando então, adotar hábitos saudáveis e conscientes.

2.1 PROTAGONISMO JUVENIL, UMA OPORTUNIDADE!

No Projeto Ética e Meio Ambiente, os alunos tiveram a oportunidade de planejar, criar, pesquisar e apresentar slides, vídeos, teatro, dramatização, seminários, entrevistas, montagem de clip, criação de letras de músicas, poemas, paródias, jornal, dinâmicas e entre outras sobre os temas propostos. Os alunos apresentaram para todas as turmas o significado e a reflexão sobre ética e meio ambiente, visando o bem estar físico e mental. A ideia de pesquisar sobre as plantas medicinais e a formação do jardim sensorial para exposição na escola surgiu pensando na prevenção de doenças, ou seja, cuidado com o corpo e a modificação de um ambiente ocioso, tornando-o utilitário, como também mostrar para todos os alunos, o significado e a importância de cada planta pesquisada.

A ação protagonista busca transformar uma realidade que precisa ser mudada. Protagonismo juvenil é a participação consciente dos adolescentes em atividades ou projetos de caráter público, que podem ocorrer no espaço escolar ou na comunidade: campanhas, movimentos, trabalho voluntário ou outras formas de mobilização. Para Costa, 2001, no protagonismo juvenil democrático os jovens transcendem o universo de seus interesses puramente particulares e se defrontam com questões de interesse coletivo. Exercitam sua cidadania ao mesmo tempo em que contribuem para o desenvolvimento da comunidade. Do ponto de vista educacional, o estimulo ao protagonismo juvenil se justifica, sobretudo, como forma de desenvolvimento da experiência democrática na vida dos jovens.
A ação protagonista do jovem adolescente, de maneira individual ou em grupo, visa buscar soluções de problemas reais, em atuação de iniciativa, liberdade e compromisso, com participação autêntica no contexto escolar, podemos citar várias ações desenvolvidas como: ações de transformação do ambiente físico escola, limpeza e conservação.
O jovem protagonista surge como fonte de atuação, pois é dele que parte a iniciativa, como foco de liberdade, porque a sua ação é pautada em uma decisão consciente e de compromisso, na medida em que o jovem responde por seus atos. “No protagonismo juvenil a participação do jovem deve ser uma iniciativa legítima e não simbólica, onde são criadas oportunidades para que o estudante possa procurar, ele próprio, a construção de sua identidade.” (Costa, 2001).
O aluno enquanto protagonista da ação educativa deve buscar a procedência dos acontecimentos, agindo de maneira efetiva na sua produção, deve decidir produzir, questionar e buscar soluções, assim estimulando o seu crescimento pessoal e ativando a cidadania no compromisso do processo interativo de responder pelos seus atos, assumindo a responsabilidade de suas ações.

2.2 O PAPEL DO PROFESSOR NESSE PROCESSO.

Para desenvolver o protagonismo, o professor deve atuar como líder, organizador, pesquisador, facilitador criativo e coautor participativo dos acontecimentos. Nesse projeto priorizou-se a ação dialógica do professor, desafiando o aluno a pensar sobre várias questões relacionadas aos temas propostos, auxiliando o entendimento da importância da sua ação, que envolve respeito, dedicação, busca, engajamento, pesquisa, troca, participação, descoberta.

O trabalho docente torna-se um contínuo reexaminar, experimentar e remodelar, uma ação-reflexão-ação. No Projeto Ética e Meio Ambiente o professor registrou todo o processo através de portfólio, fotos, slides, pesquisas e produções de textos. A pesquisa educacional requer do educador uma postura de investigação e de questionamento, baseada sobre alguns princípios, tais como senso de responsabilidade, senso cooperativo, sociabilidade, julgamento pessoal, autonomia, expressão, criatividade, comunicação, reflexão individual e coletiva, assim como desenvolvimento da afetividade.

2.3 UM PROJETO INTERDISCIPLINAR.

Os temas: ética e meio ambiente foram trabalhados dentro de um projeto interdisciplinar, não perdendo de vista que a interdisciplinaridade e os projetos interdisciplinares relacionam o conhecimento com a realidade, o educador e o educando, a teoria e a ação, respeitando as individualidades e as condições sociais. A interdisciplinaridade representa um meio para superação da fragmentação do conhecimento, possibilitando análises menos parciais da realidade, consonantes à concepção de educação emancipadora considerando os aspectos socioculturais, econômicos e ambientais.
A interdisciplinaridade é um movimento que se aprende praticando, vivendo, não se ensina; portanto exige-se um novo posicionamento diante da prática educacional e da vida, pois a interdisciplinaridade é o motor de transformação, de mudança social, em que a comunicação, o diálogo e a parceria são fundamentais para que ela ocorra.
É preciso integração, o momento da interdisciplinaridade em que há a organização das disciplinas, num programa de estudos, é o conhecer e relacionar conteúdos, métodos e teorias, é integrar conhecimentos parciais e específicos em busca da totalidade do conhecimento. Referimo-nos a uma integração do conhecimento no movimento de (re) construção que, através de novos questionamentos, novas buscas, transformam o entendimento da realidade presente.
Para Fazenda (2003), a interdisciplinaridade se apoia na tríade, formada pelo sentido de ser, de pertencer e de fazer. “A ação do educador será a de decifrar com o educando as coisas do mundo das quais ambos são participantes”. (FAZENDA, 2003, p. 38).
Neste diálogo entre professor e aluno, ambos poderão conhecer a si, o outro e o mundo. Esse conhecimento se dá por meio da palavra e da ação. O fazer interdisciplinar possibilita um olhar mais atento para o cotidiano escolar e para o favorecimento de partilhas, das parcerias entre pessoas, alunos, entre a teoria e formas de conhecimento.
A interdisciplinaridade é uma ação que requer criticidade, convivência com as incertezas, contradições e ambiguidades, a reflexão sobre a realidade de tal modo que contribua para a formação de cidadãos capazes de modificarem seu entorno social, cultural e natural. É a superação da linearidade e da fragmentação do ensino.
Interdisciplinaridade é, portanto, uma nova maneira de ver o mundo, de pensar, que resulta em troca de diferentes áreas do conhecimento, visando à produção de novos conhecimentos.

2.4 AVALIAÇÃO INTERDISCIPLINAR.

A atitude reflexiva sobre o olhar interdisciplinar da avaliação é a única forma de melhorarmos a nossa prática. Nesse sentido a reflexão sobre avaliação no Projeto Ética e Meio Ambiente deve objetivar que os alunos aprendam mais e melhor o que demanda uma mudança de postura por parte do professor e da comunidade educacional como um todo. Sendo assim, grandes desafios esperam por nós professores e grandes são as mudanças que a avaliação escolar necessita para comportar a inteireza dos sujeitos em seu processo de formação dos saberes.
Para Rabelo (1998, p. 21):
Uma avaliação só é produtivamente possível se realizada como um dos elementos de um processo de ensino e de aprendizagem que, estejam claramente definidos por um projeto pedagógico. Do mesmo modo, as alterações no processo de avaliação poderão conduzir a uma transformação de ensino.
São a partir destas possibilidades que voltamos os nossos olhares sobre um contexto ampliado da avaliação educacional, um olhar interdisciplinar como Gaeta (2002, p. 224) o descreve:
Um olhar de dentro para fora e de fora para dentro, para os lados, para os outros. Um olhar que desvenda os olhos e, vigilante, deseja mais do que lhe é dado ver. Um olhar que transcende as regras e as disciplinas, olhar que acredita que só existe o mundo da ordem para quem nunca se dispôs a olhar! Um olhar inflado de desejo de querer mais, de querer melhor, um olhar que recusa a cegueira da consciência.
O Projeto Ética e Meio Ambiente foi desenvolvido coletivamente, objetivando a transformação da assimilação passiva pela assimilação crítica. Todo registro pelo professor baseou-se em portfólio, fotos, slides, pesquisas e produções de textos. Um dos objetivos principais é que o adolescente trate seu corpo físico e mental, como o meio ambiente mais importante, ou seja, deverá conhecer e cuidar do próprio corpo, valorizando-o, adotando hábitos saudáveis e pensamentos construtivos.

REFERÊNCIAS

Capellato, Ivan Roberto. Educação com afetividade. Pisco, 2011
Clotet J. Una introducción al tema de la ética. Psico 1986; 12(1)84-92.
FAZENDA, Ivani Catarina. Arantes. Interdisciplinaridade: qual o sentido? São Paulo: Paulus, 2003.
GAETA, Cecília. In: FAZENDA, Ivani. (Org.). Dicionário em Construção: Interdisciplinaridade. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2002.
GOMES DA COSTA, Antonio Carlos. Tempo de servir: o protagonismo juvenil passo a passo; um guia para o educador. Belo Horizonte: Editora Universidade, 2001.
MEC - Parâmetros Curriculares Nacionais. O Novo Ensino Médio. 2000
PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS: TEMAS TRANSVERSAIS. Brasília: MEC/SEF, 1998; 96-104-108-201-233-275.
Mello, Guiomar Namo. Diretrizes Curriculares para o Ensino Médio: Por uma escola vinculada à vida. Maio\1999
RABELO, Edmar Henrique. Avaliação: novos tempos, novas práticas. Petrópolis: Vozes, 1998.
Zagury, Tania. O adolescente por ele mesmo. Rio Janeiro, 2001
http://michaelis.uol.com.br/. Acesso dia 21/09/14