segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

REPORTAGEM: PROJETO ÉTICA E MEIO AMBIENTE 2014

Do individual para o coletivo: como a ética mudou uma escola

Ao não manter o ambiente escolar limpo, alunos desrespeitavam a si mesmos.
O hábito de comer e largar os pratos no chão parecia tão natural para grande parte dos estudantes da Escola Estadual Professor Júlio Bierrenbach Lima, que fazer o correto seria como querer parecer o certinho para os outros, o que não ficaria bem entre os colegas. E, então, quem se arriscaria a mudar? Lá um belo dia, a professora de Língua Portuguesa apareceu com uma proposta diferente, que mexeu com os valores de cada um e a transformação teve início: do individual para o coletivo.
Inspirada em um dos temas de redação do Enem - O indivíduo frente à ética nacional - a professora Selma Aparecida Groff teve a iniciativa de propor não apenas trabalhos que estimulassem a escrita, como também proporcionassem aos alunos o conhecimento necessário para desenvolver um bom texto. E ela sabia que isso só seria possível se eles estivessem envolvidos com algo que realmente tivessem interesse. Ética era um tema que chamava a atenção de todos, por envolver atitudes perante situações da vida, algo tão necessário ser discutido sempre e principalmente nos dias de hoje. E, então, Selma uniu Ética ao Meio Ambiente, dois temas transversais que constam nos Parâmetros Curriculares Nacionais, e complementares entre si no projeto intitulado Ética e meio ambiente na adolescência, que foi desenvolvido com os alunos dos quatro primeiros anos do ensino médio.
Temas transversais são aqueles que podem ser abordados em todas as disciplinas porque atravessam diferentes campos do conhecimento. Os alunos discutiram o assunto, pesquisaram, fizeram entrevistas sobre a problemática com funcionários da própria escola, saíram para ver exposições, foram conhecer mais sobre o meio ambiente e produziram muito: textos (que foram apresentados em forma de slides), peças de teatro, curtas-metragens, músicas, poesias... No meio disso tudo teve até prêmio, em primeiro lugar, em um concurso da UNESP.

Como tudo começou:
Selma Groff conta que tudo começou com um debate para que os alunos pudessem responder o que é ética e o que é meio ambiente. Os temas são interligados, afinal quando se fala em meio ambiente, não se está falando somente de aspectos físicos e biológicos. As relações que são estabelecidas pelo ser humano - social, econômico e cultural - também fazem parte desse meio e, portanto, são objetos da área ambiental.
A professora conta que o que mais incomodava na escola tinha tudo a ver com ética e meio ambiente: o posicionamento dos alunos que estavam desrespeitando a si mesmos, os outros estudantes e os funcionários da escola, sem se darem conta. E ainda sujando o lugar onde estudam. Tudo por causa de uma prática que se tornou um hábito incorrigível: comer e largar o prato no chão.
Segundo os alunos entrevistados, não adiantava os funcionários brigarem, falarem, o hábito permanecia. Foi então que um dia, quando foram conversar com funcionários da escola sobre o tema ética, que acabaram ouvindo deles a reclamação sobre a sujeira e entenderam as razões. Diante dos depoimentos, eles perceberam que aquela atitude tinha de ser mudada. "Ética é respeito. Se você se respeitar, você vai conseguir respeitar o outro ser humano e o ambiente que está ao seu redor. O ambiente não é só o espaço, é a boa convivência, é pensar sobre si, e os alunos refletiram e tiveram essa consciência", orgulha-se Selma.
O projeto se espalhou pela escola porque Selma estimulou seus alunos a apresentarem tudo o que tinham aprendido para os colegas das outras séries: de 5ª a 8ª e 2º e 3º anos. Além disso, os primeiros anos - envolvidos com o trabalho - interagiram entre si e produziram juntos.
E se engana quem pensa que o assunto ficou concentrado na sujeira da escola, esse foi um dos aspectos abordados pelos estudantes. Pode-se dizer que é o tema que contou com maior mobilização de alunos, coletivamente, mas as transformações pessoais foram muitas e em vários aspectos.
Os estudantes foram conhecer o SOS Mata Atlântica e o Projeto Catavento (onde receberam orientações sobre cuidados com o corpo e a saúde, foi falado sobre drogas, prevenção à gravidez, entre outros). "Foram abordadas questões importantes para que eles se conheçam como pessoa e saibam os seus limites, até onde podem ir. Os adolescentes têm mania de exagerar em tudo, cometer excessos com alimentação, bebida, sexo", comenta a professora. "Eles perceberam que tudo o que gera um mal-estar para o corpo, gera para o ambiente ao seu redor", complementa.
Para esse trabalho, Selma contou com a colaboração de professores de outras disciplinas: Breda, de Educação Física; Soraia Simões e Valéria Pisani, de Biologia; Sheila Guiden, de Arte; e Gislaine Nunes Cabral, de Ciências. O projeto durou o ano todo e alunos de outras séries também colaboraram, como por exemplo, a turma do 7º ano, que produziu um jornal cujas notícias foram divulgar as produções do 1º ano.

Aluno vence prêmio com projeto sobre ética e meio ambiente

O projeto Ética e meio ambiente na adolescência foi inscrito na 2ª Mostra Científica para Jovens Talentos de Sorocaba, realizada pela UNESP local, e contemplou Gabriel Giovani Ferreira Santos Leite com o primeiro lugar do ensino médio/técnico. Além de ter conquistado um troféu para sua escola, Gabriel recebeu um certificado de menção honrosa e ganhou bolsa de iniciação científica CNPq pelo período de 12 meses. Com esse incentivo, ele pretende dar continuidade ao projeto, realizando palestras em diversas instituições de ensino. "O Gabriel é um jovem talento. Se ele não conseguisse apresentar de forma clara, não teria ganhado, mas ele soube expor a profundidade do projeto", elogia a professora Selma Groff. Com a temática Meio Ambiente e Sustentabilidade, o evento promovido pela UNESP reuniu 26 projetos orais, mais 15 pôsteres, maquetes e experimentos de alunos do ensino fundamental e médio de Sorocaba, tanto do ensino público como do privado.
A II Mostra Científica para Jovens Talentos de Sorocaba, realizada pela UNESP local e com apoio do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq), premiou diversos talentos jovens da cidade. A mostra, que abordou a temática Meio Ambiente e Sustentabilidade, teve como objetivo despertar em estudantes do ensino fundamental e médio/técnico o talento e vocação para a ciência. O evento contou com a exposição de trabalhos na forma de pôster e oral, bem como a apresentação de experimentos. Esses trabalhos foram avaliados por um comitê científico qualificado, composto por alunos do Programa de Pós Graduação em Ciências Ambientais (PPGCA) da UNESP de Sorocaba e com participação da professora Regina Marcia Longo, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (Puccamp). A abertura do evento contou com a palestra. A transformação do município de Sorocaba e a interferência nas relações socioambientais ministrada pelo estudante Antonio Gabriel Cerqueira Gonçalves, vencedor da I Mostra Científica. os premiados do ensino fundamental foram: 1º lugar - Ana Giulia Gervasio Daniel/Prof.ª. Valéria Vida, com o projeto Plantio em ambiente fechado e pequeno, da Escola Municipal Matheus Maylasky; 2º lugar - Cristian Dreike Lima Soares/Prof.ª. Idelzuite Leme, com o projeto Maquete de energia eólica reciclável e sustentável, da Escola Municipal Matheus Maylasky, 3º lugar - José Francisco Soranz Filho/Prof. Carlos Guariglia, com Água de reuso bombeada com energia das ruas, do Colégio Objetivo Sorocaba. os premiados do ensino médio/técnico foram: 1º lugar - Gabriel Giovani Ferreira Santos Leite/Prof.ª. Selma Groff, com o projeto Ética e meio ambiente na adolescência, da EE Júlio Bierrenbach Lima; 2º lugar - Matheus Henrique Gonçalves/Prof.ª. Mara Kitamura Transporte, do Colégio Dom Aguirre; e 3º lugar - Lucas Henrique Rosa Rodrigues/Prof. Victor Pinheiro, com Preservando a cidade em um clique: o uso da tecnologia móvel, do Colégio Objetivo Unidade Zona Norte. Os três primeiros colocados no ensino médio/técnico de escolas públicas receberam um certificado de menção honrosa, além de bolsa de iniciação científica CNPq (12 meses). Os premiados nesta categoria foram: 1º lugar - Gabriel Giovani Ferreira Santos Leite, com Ética e meio ambiente na adolescência, da EE Júlio Bierrenbach Lima; 2º lugar - Isabella Cristine Santos, com Economia sustentável, da E.E. Antonio Vieira Campos; 3º lugar, Michael Nunes Vieira, com Reparando os males uso sustentável da água, da E.E. Ezequiel Machado / Emerson. Os professores orientadores também foram contemplados com um certificado de menção honrosa. as escolas nas quais esses alunos estavam vinculados também foram contempladas com um troféu. Além das atividades de exposição de trabalhos, a mostra contou com uma oficina de tinta de solos, ministrada por Fátima Aparecida Costa, participante do Projeto Coloide (http://projetocoloideunesp.blogspot.com.br/). A comissão organizadora foi coordenada pelo professor Leonardo F. Fraceto, coordenador do Programa de Pós-graduação em Ciências Ambientais da UNESP Sorocaba.


Estudantes não praticavam na escola aquilo que faziam em casa

Ingrid Correa Gomes, 15 anos, 1º ano D; Isabelly Carvalho Medeiros, 14 anos, 1º D; Gabriel Giovani Ferreira Santos Leite, 15 anos, 1º D; e Gabriela da Silva Oliveira, 15 anos, 1º C, viveram a experiência e fazem questão de contar como foi. Conforme eles, quando estavam planejando o trabalho, surgiu à ideia de fazer entrevistas com os funcionários (e gravar) porque eles é que mais prestavam atenção na ética dos alunos. "Durante a entrevista que fizemos, pelo que eles nos disseram, percebemos que eles são contratados para manter a limpeza, mas não têm obrigação de recolher bolinhas de papel do chão. A função deles é trocar o saco de lixo da lixeira", comenta Ingrid.
Gabriela conta que eles começaram a notar que o que os estudantes faziam em casa, não praticavam na escola. "Aí nós percebemos que, indiretamente, estávamos fazendo mal aos funcionários", relata.
Na escola, são dois funcionários para fazer a limpeza e eles têm 30 minutos para deixar todas as salas em ordem, entre a saída da turma da manhã e a entrada dos alunos da tarde. "Então, agora a gente pede cinco minutos para o professor, antes de terminar a aula, para arrumarmos as fileiras. Também pegamos os papéis do chão e os funcionários da limpeza agradeceram, porque facilitou para eles", conta Isabelly.

O trabalho incluiu entrevista com os funcionários antes e depois da mudança, primeiro para saber o que achavam dos estudantes e depois para terem o retorno, verificarem o que estavam achando. "Estamos levando o exemplo e assim vamos influenciando outras pessoas também. Se eu pegar uma bolinha e jogar no lixo é um trabalho a menos para o funcionário e pode ser uma conscientização para um colega. Temos de mostrar atitude para dar o exemplo, e não cobrar só com palavras", afirma Gabriel.
Todos os participantes do projeto perceberam que os outros alunos da escola começaram a reparar em suas atitudes. Eles contam que começaram a receber elogios e ter o exemplo seguido. "Antes, o pessoal achava feio ser certinho, os alunos tinham vergonha de pegar papel do chão", comenta Ingrid.
Ainda conforme Ingrid, o passo inicial foi manter o pátio limpo. "Melhorou. As pessoas começaram a não jogar mais lixo no chão. A gente conversou com eles de uma forma legal e até o 3º ano nos escutou e respeitou bastante. Antes, os pratos ficavam no chão e, por mais que tivesse alguém que falasse para não fazer isso, era um hábito já e nós vimos que isso precisava ser mudado."
Ingrid e os outros colegas afirmam que não fizeram esse trabalho só por nota. "Mas porque iria proporcionar resultados bons para a gente e para a escola", reforça a estudante. "Muitas pessoas falaram que não podemos esquecer esse projeto. Minha ideia é levar para a vida inteira", diz Gabriel, que pretende ser palestrante.
Já Gabriela conta que aprendeu muitas coisas com o projeto para a sua vida. Durante a pesquisa que fizeram com plantas medicinais, ela descobriu as qualidades do orégano. "Eu não comia e depois que soube que o orégano substitui o sal e faz bem para a saúde, passei a consumir. Outra coisa é que comecei a arrumar o meu quarto. Se você não consegue manter o seu espaço limpo, como é que vai ser capaz de outras coisas? Então, comecei por mudar meus pequenos hábitos para depois partir para as grandes atitudes. O legal desse projeto é que não ficou só no escrito, a gente mudou", diz.
Isabelly complementa: "E não é algo que vai ficar só pra gente. Em casa, com a falta de água, tomei iniciativa de usar a água da máquina de lavar roupa para lavar o quintal. Também comecei a guardar a água do banho em uma bacia, e foi um exemplo para a família. As pessoas veem você tendo atitudes que elas não têm então você é o espelho para a sociedade", afirma. (Daniela Jacinto)
Notícia publicada na edição de 25/12/14 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 020 do caderno A - o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.
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